sexta-feira, 8 de abril de 2022

disparada

prepare o seu coração 

pras coisas que eu vou contar

eu venho lá do sertão

eu venho lá do sertão

e posso não lhe agradar

aprendi a dizer não

ver a morte sem chorar

e a morte, o destino, tudo

a morte, o destino, tudo

estava fora do lugar

eu vivo pra consertar

na boiada já fui boi

mas um dia me montei

não por um motivo meu

ou de quem comigo houvesse

que qualquer querer tivesse

porém por necessidade

do dono de uma boiada

cujo vaqueiro morreu

boiadeiro muito tempo

laço firme e braço forte

muito gado, muita gente

pela vida segurei

seguia como num sonho

e boiadeiro era um rei

mas o mundo foi rodando

nas patas do meu cavalo

e nos sonhos fui sonhando 

as visões se clareando

as visões se clareando

até que um dia acordei

então não pude seguir

valente em lugar tenente

o dono do gado e gente

porque gado a gente marca

tange, ferra, engorda e mata

mas com gente é diferente

se você não concordar

não posso me desculpar

não canto pra enganar

vou pegar minha viola

vou deixar você de lado

vou cantar noutro lugar

na boiada já fui boi

boiadeiro já fui rei

não por um motivo meu

ou de quem comigo houvesse

que qualquer querer tivesse

por qualquer coisa de ser

por qualquer coisa de ser

querer mais longe que eu


disparada

terça-feira, 18 de janeiro de 2022

uma semana sem josé na terra

ainda me acostumando com este pensamento ..

a vida tem uns trem que num dá memo pa entender. eu só queria achar logo um sentido pra isso .. ressignificar essa angustia, essa partida que inda num parece fazer sentido nenhum.

oiar com calma esses evento

saber pa que lado isso vai

qual a ideia .. qual o proximo passo a partir dessa nova realidade.

o mundo sem ele num cumbina .. mas acho que com o tempo isso vai se modificando também.

hoje, já me sinto um pouco menos chorosa, mas sigo perdida sem saber se é rezano ou oiano po céu que os trem vai se ajeitar mió. sem rumo .. indefinições. vontade de sabê, mas sabendo que talvez a ideia é descobrir só depois, com a vida mais acontecida.

josézim, acho que nem eu sabia ..

zuba


domingo, 16 de janeiro de 2022

para josé .. em algum dia de 2019

 .. josé me movimenta, me faz sair de todas as modalidade de extremo que existe.

saio da norte pra sul e encontro em sua casa um outro tempo. 

josé vive memo notro ritmo e  desafia todos os meu compasso. 

subo o morro que dá pro seu barraco numa escadinha fia da  mãe que conta miliuma histórias de tropeço. 

já na porta, sou recebida pela sem graceza de josé, todo tímido pelos desencontro dotro dia. 

os mecanismo de funcionamento, nesse ponto, é comum .. 

ir é memo só pa quem vai

e nois vamo.

já nas ota alegria, me mostra cum jeitim bonito as boina que tá fazendo com restoio de 

guarda-chuva. tudo sem molde, só nas ideia.

costurinha feita à mão e que encaixa bunitim na cabeça. 

sorrio por ver que ele existe daquele  jeito e que faz uns trem bonito nesses improviso puro de existença .. 

zuba após encontrar josé, em algum dia de 2019

ainda em luto

ainda em processo de ressignificação deste momento.

josé me inspirava muito. sempre que o via escrevia algo, pois me afetava enormemente. 

eu sabia que era importante pra mim, mas é a despedida do mundo que faz a gente perceber o tamanho do que a gente sente.

e é muito grande ..

ainda naquelas pira de "e se" e "eu devia" .. mas uma hora passa.

foi como devia ter sido .. por mais triste que seja a marca deste destino.

eu espero que ele não tenha sofrido e que hoje esteja em paz, oiando de cima seus trem preferido.

eu sei que vou sentir muita saudade e angustia pela falta de oportunidade de reve-lo. a vida vai ficar mais demorada por aqui.


despedida à josé (11 de janeiro de 2022)

 


teve um dia que num tive ota alternativa senão me apaixonar ..
oiava cos ói e rebubinava na mente comé que se fazia possível um evento de gente daquele tipo.

conhecemo pelo reggae, mas seu gato era samba e clube de esquina só podia memo ser um de seus discos preferido.

escrevia bonito porque entendia de vila e de belezas e num se prestava a falar difícil porque sabia que tudo que é palavra se acaba no final.

pois fique oce sabeno que na época eu fiz foi de tudo só pa chegar perto daquele homi, numa sagacidade que nem eu mema sabia sair de mim.

rumei motivo e inventei inté metodologia científica só pa poder lidizê umas pequena palavra. tomamo sorvetes, falamo da vida e de uns trem tão bão que dava nem pra miorar.

ocupano o morro da lua, me levou pa oiar o céu de sumpaulo e rir por aquele mai bem feito projeto de descuido: ele conseguiu. 
era todo mundo, menos josé. 

josé, a exceção do tempo. 
a exceção em mim.

costurando boné com resto de sombrinha enquanto nada se resolvia.
desenhando flyer com lápis de cor, colorindo os muro de sua comunidade.
construindo seu barraco, enfeitando sua morada com uma delicadeza que só podia memo ser fia dele.

tudo era de fazer sorrir e lembrar da vida.
observar seu cotidiano era se perguntar todo dia de que diabo de buraco a pressa saiu.
calmaria.

ocê vê meteoro, mai num encontra uma pessoa dessas viveno num lugar desses..

hoje, com o coração triste, sabemo da morte precoce de josézim.

muitas lembranças atolam a mente. 
dos primeiro encontro à nossa última primavera, quando celebramos nossos aniversário.
josé virô amigo, daqueles que cê fica bem em ter notícia boa. num há como mudar o querê duma qualidade de gente assim.

é de chorar.

depois de meses torcendo pano pa rumar letra, hoje volto aqui porque num há oto jeito de se viver essa tristeza.
mai inda assim, num há escrevança que caiba no tamanho que tem um acontecido desses.

"gosto muito de ocê"
em paz, josezim. muito obrigada por fazer parte dessa grande aventura ..

zuba

segunda-feira, 29 de novembro de 2021

a ultima poesia (julho de 2021)

o corpo virô repelente de palavra
já faz um tempo que num escrevo e que só fico de trabaiá
mas o trabai é um trem que me arruma felicidade ..
hoje tive notícia dos oto
e lembrei como é bão fazê parte da história de algumas pessoa
há alguns dia recebi tanto carim que num teve jeito de num me lembrá de mim e dos meu acontecido.
como terapeuta ocupacional, empresto meu corpo
uso dum jeito desarrumado afetos ..
mexo em tudo que é verbo do corpo e do oiá
cutuco os imprevisto, contano cas suas aparição.
oto dia encostei em alguém
e já viramo um novo dia ..
o mal do homi
é achar que tá tudo acabado demais ..


zuba

quinta-feira, 29 de julho de 2021

atualizações duma vida que num brecou

muita coisa rolou nos últimos meses ..

atualmente tô trampando num caps infantojuvenil aqui perto de casa, to em fase de conhecimento, ainda me entrosando com a galera .. sinto a necessidade de estacionar por um tempo para aprender um pouco mais sobre esse trampo na saúde mental num serviço da raps.

no mais, sou ainda muito apegada à rede e às histórias que acompanhei na leste. hoje uma defensora disse que fui lembrada com carim por i, quando questionado sobre em quem confiava. é tão bão deixar essas marcas e não permitir que elas se percam no tempo. 

há ainda muito trabaio a ser feito.

ler esta mensagem foi o incentivo que precisava para seguir com minha proposta de mestrado, que anda aos trancos e barrancos (pelo menos acabei de finalizar o ultimo trabalho para disciplina obrigatoria).

mas ultimamente é o caso de e. que tem mexido muito comigo.

e. é um jovem de 18 anos com diagnostico de esquizofrenia. ele tem alucinações auditivas que tem se intensificado nos ultimos meses. no momento, encontra-se confinado em casa, apenas rezando e repetindo estar confuso demais pra viver ou experimentar qualquer coisa nova, diferente ..

hoje liguei pra ele .. foi a primeira vez que a conversa foi com pausas. estava angustiado, com pressa para desligar, mas também com vontade de seguir com algum padrão de vida que se permite encontrar.

ele mexe comigo ..

é super crítico, diz que uma de suas maiores qualidades "é entender da vida" .. e brinco com ele, pedindo pra que "não queira entender demais .. senão fica chato".

desta vez ele nem riu.

estive pensando em casos que acompanhei ainda antes de me formar como terapeuta ocupacional. eu tenho a marca de me envolver demais e tento manter um olhar crítico sobre isso .. sobre limites terapeuticos e sobre como por vezes eu ultrapasso significativamente essas bordas.

eu me misturo no processo .. criamos, juntos, afetos, e aprendemos com eles.

há a permissão para que o imprevisivel aconteça, contando sobretudo com ele.

eu uso meu corpo, eu empresto meu corpo de terapeuta para que a pessoa descubra e se lance ao mundo, às outras pessoas. para transpor uma barreira que tá ali.

na ultima sexta, saí com e.

falei: hoje não vamos ficar aqui. vamos sair.

fazia mais de um mês que ele não saia de casa para andar na rua.

tomamos sol. por fim, ele aceitou tomar sorvete e se viu conversando sobre outras coisas que não as vozes. reconheceu, da propria boca, a sua força. "elas pedem para fazer coisas ruins, mas eu não faço".

por um tempo, a realidade acontecia fora de sua mente ..

na segunda, foi à academia.

na terça, não conseguiu subir ao consultório médico.

na quinta, não conseguia falar comigo.

e agora não consigo parar de pensar nele.


zuba