Em um CAPS voltado ao cuidado para crianças e adolescentes que estejam em situação de sofrimento mental grave, persistente e insistente - porque sim: a gente num precisa esperar crescê pa sofrê.
O sofrimento invade a história já desde os começo.
Tem dia até que eu penso que, pralgumas vida, sofrimento num é mais nem sensação: é condição.
Chega antes do corpo e molda a alma.
Insiste em acontecer.
Nessa trajetória que já leva uns ano, tenho ficado cada vez mais assustada e confirmada numas impressão.
É muito triste o que uma cidade como São Paulo pode fazer com as infâncias. Mais ainda com aquelas que num dividem opiniões - sempre serão erradas, apontadas, culpadas, evitadas, eliminadas.
Oto dia vi um relato que num dava conta de ser diferente.
Nos mistério do Brasil, as infância num são igual.
Numa ponta, crianças que dormem, que brincam, que têm dor de barriga e dor de dente, que salta meleca do nariz, suja ropa, anda pelada, vê lambisome, ruma umas ingrisia fora de hora, que vivem em comunidade e que vê remédio só nas urgência dos revertério.
De ota, criança que num dorme, que já desde muito cedim experimenta piripaque no peito, que num consegue oiá pro lado, que num sabe o que é perto e o que é longe porque o mundo todim cabe embaixo.
Que o sol num conhece a pele, que os dia passa sempre muito parecido.
Que xinga, bate e ofende porque as mão num experimenta carinho.
Que a mema boca que come transgênico, cala com remédio.
Que precisa de terapia de trezentos reais a hora porque num tem espaço pa correr nessa miséria de cidade rica.
Pa essas infância, os comprimido começa e termina os dia. Dita as ordem do corpo.
Completa aquilo que os boleto rouba do afeto, do tempo, do ser junto.
As instituições engolem.
Eu já vi famias sem tempo de amar.
Já vi pílula virar solução.
Diagnóstico como busca de razão.
Já vi brincadeira virar doença.
Entusiasmo virar sintoma.
Criatividade virar esquizofrenia.
Curiosidade, problema.
E medo, pura covardia.
Já vi umas conta que desafia qualquer lei da matemática:
Ocê entra num consultório, fica trinta minutim, paga uns 70 conto e sai com 3 diagnóstico e 1 cordão pa mostrar pa quem quiser ver os motivo de seus desengonço.
"Oto dia ela atravessou a rua sem oiar pros lado", diz uma mãe duma criança de 3 anos.
E por um acaso era pra oiar? Eu perguntei.
São Paulo quer crianças prontas.
Justo nóis, que nunca tamo nunca terminado.
Muitas vezes meu trabai é fazer lembrar da vida como ela pode ser.
É falar de trabaio. De rotina. De contas. Pressão. Ansiedade. Violências.
Gerações de famias presas numa única lógica: a de produzir e servir.
Meu trabai é temperar o coração e a cabeça pa otas coisa.
É emprestar desejo, rebeldias.
Estratégias de respiro.
Lembrar ao corpo como é sossegar.
Que cheiro pode ter a liberdade.
E os gostim de qualqué novidade.
Já acompanhei um caso duma mãe que amava seu fi com todo o seu coração.
Que o amor chegava transbordar em seu zói ..
mas que parava quando o despertador tocava de madrugada pa ir trabaiar num subemprego.
A depressão grave do fi era um obstáculo pa rotina.
Encontrar um dia o fi acabado em casa seria motivo de sua infinita tristeza, mas também, dalgum jeito muito torto de se entender, a sua solução.
Um problema a menos pa uma mãe solo resolver.
Porque pa tristeza a gente até dá um jeito.
Mas e a falta? Como é que dá pa justificar a falta po patrão?
Duas coisas atrapaiam o funcionamento do capital: a doença e a vida.
Irmãs de sangue, fruto dalgum casamento que começô arrumadim, mas que se acabô num divórcio muito dos bagunçado, com direito a briga de herança e tudo mais.
Na genética das duas, uns cromossomo em comum denuncia as falta de espaço:
Quem é muito doente num tem vez.
Mas num se engane.
Quem é vivo demais, também não.
Já conheci uma famia inteira que mudô de vida quando interrompeu São Paulo.
Insistiam aqui porque a rede de saúde era mais bem servida.
Hoje, recebo fotos deles tomando banho de ri numa cidade pequena no Maranhão.
Num é que tão mai rico, menos pobre, menos preocupado ou mais resolvido.
Talvez seu fi continue num querendo estudar.
Muito provavelmente sua maior ambição ainda é ser rico, apostando no tigrinho.
Mas o que as minha boca pode dizer é que a mesma mãe que tava pescando naquela represa, seis meses atrás tava indo enfrentar traficante, implorando pos homi parar de vender droga pro seu menino.
E ele, pouco antes disso, tava ameaçado de morte e pulando laje pa se encontrar com a substância.
E essa num é uma história emblemática.
É uma história comum numa cidade que produz esses comuns em corpos marcados.
A biqueira ficava na esquina da casa.
E eu sei num é porque me contaram, não.
Sei porque é parte do meu trabai estar no território, apesar da mema lógica que produz essa lambança de vidas doentes insistir em fazer do SUS um chão de fábrica existido pa bater meta.
E memo nesse embaraço todo, os encontro num deixam de acontecer.
Enquanto tiver gente ouvindo gente e tando com gente, vão existir otos jeito de ser gente.
Eu vivo pa experimentar otos tipo de ser gente.
Nunca vô dá conta de ser gente pa sempre do memo jeito.
E eu, que num sô lá muito das mais acusatória, nisso já tenho dada minha sentença.
"Eu tô sentindo um buraco no meu coração", disse a criança de 7 anos durante um luto.
O nome disso, a essas altura, num pode ser chamado de qualquer doença.
É a vida aconteceno, apesar dela mema.
Só pode ser ela se quereno pa sempre, sem cura, a cada novo dia.
Zuba
gente e terapeuta ocupacional de gente

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