domingo, 8 de março de 2026

6h em um caps

 - Telefonema de abrigo pedindo apoio pra tentativa de suicidio de um adolescente.

- Acolhimento de uma criança de 8 anos que não tá mais comendo, dormindo, nem saindo de casa após a morte dos avós.

- Atendimento a uma adolescente, mãe, que tá começando a sentir fissura com maconha - e que provavelmente tá usando tudo, menos maconha.

- Criança em grupo que chora, grita e joga tudo no chão porque quer jogar uno, mas vai ter que ficar pra semana que vem porque temos metas a bater e equipe reduzida.

- Adolescente em intenso sofrimento pois sofre muita violência em casa e só quer ficar dormindo.  Fora da escola há meses.

- Todos os atendimentos com escuta, conduta e registros em prontuários.


E tudo isso em síntese ... porque vão horas de acolhimento, manejo, abertura pra vínculo, não só das crianças e dos adolescentes, como também de quem cola com eles.

Essencial em tempos de memes de CAPS que afasta do serviço justamente quem mais precisa dele.

Quanta coisa fazemos num dia só, e me impressiona sempre como o trabalho é variado.

O sofrimento faz suas próprias curvas na vida da gente.

Trabalhar no SUS, na saúde mental, não tem tédio. 

E como é importante estar na mesma frequência do trampo.

Mas hoje saí feliz. 

Feliz de estar ali, inaugurando vínculo na mixirica, perguntando a cor da minha bochecha só pra criança olhar pra mim, sendo rede pra quem se vê sozinhe nesse mundo, falando de redução de danos, do morango do amor que vamos fazer semana que vem, ou da trancinha e skin care que vou ser cobaia!

O SUS que queremos já não é mais o SUS. É além dele!

E é além dele porque não cabe em sistema, em metas, em abertura pra mercado privado, em meio de caminho pra lucro.

É além dele porque é feito por quem sempre tem que ir além. 

O além é como aquela nossa reza de todo dia.

Pra fazer saúde coletiva, não dá pra fazer saúde pública. 

A lógica precisa ser outra: encontrada em gente que mexe com gente e que se encontra no território com muitos outros tipos de gente fazendo gentices.

O meu trabalho só faz mais sentido porque não é feito sozínho! 

e porque sigo aprendendo muito junto aos colegas, amigos, na militância.

No sábado, durante uma reunião, nossa militância foi por sonhar.

Acima do SUS, só nóis: o povo!


ZUBA

sábado, 7 de março de 2026

a doença e a vida

Bão, caso ainda haja alguma dúvida, eu trabaio no SUS, ne? 
Em um CAPS voltado ao cuidado para crianças e adolescentes que estejam em situação de sofrimento mental grave, persistente e insistente - porque sim: a gente num precisa esperar crescê pa sofrê. 
O sofrimento invade a história já desde os começo. 
Tem dia até que eu penso que, pralgumas vida, sofrimento num é mais nem sensação: é condição. 
Chega antes do corpo e molda a alma.
Insiste em acontecer.

Nessa trajetória que já leva uns ano, tenho ficado cada vez mais assustada e confirmada numas impressão.
É muito triste o que uma cidade como São Paulo pode fazer com as infâncias. Mais ainda com aquelas que num dividem opiniões - sempre serão erradas, apontadas, culpadas, evitadas, eliminadas.

Oto dia vi um relato que num dava conta de ser diferente. 
Nos mistério do Brasil, as infância num são igual. 

Numa ponta, crianças que dormem, que brincam, que têm dor de barriga e dor de dente, que salta meleca do nariz, suja ropa, anda pelada, vê lambisome, ruma umas ingrisia fora de hora, que vivem em comunidade e que vê remédio só nas urgência dos revertério.

De ota, criança que num dorme, que já desde muito cedim experimenta piripaque no peito, que num consegue oiá pro lado, que num sabe o que é perto e o que é longe porque o mundo todim cabe embaixo. 
Que o sol num conhece a pele, que os dia passa sempre muito parecido. 
Que xinga, bate e ofende porque as mão num experimenta carinho. 
Que a mema boca que come transgênico, cala com remédio.
Que precisa de terapia de trezentos reais a hora porque num tem espaço pa correr nessa miséria de cidade rica.

Pa essas infância, os comprimido começa e termina os dia. Dita as ordem do corpo. 
Completa aquilo que os boleto rouba do afeto, do tempo, do ser junto.
As instituições engolem.

Eu já vi famias sem tempo de amar.
Já vi pílula virar solução.
Diagnóstico como busca de razão.
Já vi brincadeira virar doença.
Entusiasmo virar sintoma.
Criatividade virar esquizofrenia.
Curiosidade, problema.
E medo, pura covardia.

Já vi umas conta que desafia qualquer lei da matemática: 
Ocê entra num consultório, fica trinta minutim, paga uns 70 conto e sai com 3 diagnóstico e 1 cordão pa mostrar pa quem quiser ver os motivo de seus desengonço.

"Oto dia ela atravessou a rua sem oiar pros lado", diz uma mãe duma criança de 3 anos.
E por um acaso era pra oiar? Eu perguntei.

São Paulo quer crianças prontas.
Justo nóis, que nunca tamo nunca terminado.

Muitas vezes meu trabai é fazer lembrar da vida como ela pode ser.
É falar de trabaio. De rotina. De contas. Pressão. Ansiedade. Violências. 
Gerações de famias presas numa única lógica: a de produzir e servir.
Meu trabai é temperar o coração e a cabeça pa otas coisa. 
É emprestar desejo, rebeldias. 
Estratégias de respiro.
Lembrar ao corpo como é sossegar.
Que cheiro pode ter a liberdade.
E os gostim de qualqué novidade.

Já acompanhei um caso duma mãe que amava seu fi com todo o seu coração. 
Que o amor chegava transbordar em seu zói .. 
mas que parava quando o despertador tocava de madrugada pa ir trabaiar num subemprego.
A depressão grave do fi era um obstáculo pa rotina.
Encontrar um dia o fi acabado em casa seria motivo de sua infinita tristeza, mas também, dalgum jeito muito torto de se entender, a sua solução.
Um problema a menos pa uma mãe solo resolver.
Porque pa tristeza a gente até dá um jeito.
Mas e a falta? Como é que dá pa justificar a falta po patrão?

Duas coisas atrapaiam o funcionamento do capital: a doença e a vida. 
Irmãs de sangue, fruto dalgum casamento que começô arrumadim, mas que se acabô num divórcio muito dos bagunçado, com direito a briga de herança e tudo mais.
Na genética das duas, uns cromossomo em comum denuncia as falta de espaço: 
Quem é muito doente num tem vez.
Mas num se engane.
Quem é vivo demais, também não.

Já conheci uma famia inteira que mudô de vida quando interrompeu São Paulo.
Insistiam aqui porque a rede de saúde era mais bem servida.
Hoje, recebo fotos deles tomando banho de ri numa cidade pequena no Maranhão.
Num é que tão mai rico, menos pobre, menos preocupado ou mais resolvido.
Talvez seu fi continue num querendo estudar.
Muito provavelmente sua maior ambição ainda é ser rico, apostando no tigrinho.
Mas o que as minha boca pode dizer é que a mesma mãe que tava pescando naquela represa, seis meses atrás tava indo enfrentar traficante, implorando pos homi parar de vender droga pro seu menino.
E ele, pouco antes disso, tava ameaçado de morte e pulando laje pa se encontrar com a substância.

E essa num é uma história emblemática.
É uma história comum numa cidade que produz esses comuns em corpos marcados.

A biqueira ficava na esquina da casa.
E eu sei num é porque me contaram, não.
Sei porque é parte do meu trabai estar no território, apesar da mema lógica que produz essa lambança de vidas doentes insistir em fazer do SUS um chão de fábrica existido pa bater meta.

E memo nesse embaraço todo, os encontro num deixam de acontecer.
Enquanto tiver gente ouvindo gente e tando com gente, vão existir otos jeito de ser gente.
Eu vivo pa experimentar otos tipo de ser gente.
Nunca vô dá conta de ser gente pa sempre do memo jeito.
E eu, que num sô lá muito das mais acusatória, nisso já tenho dada minha sentença.

"Eu tô sentindo um buraco no meu coração", disse a criança de 7 anos durante um luto.
O nome disso, a essas altura, num pode ser chamado de qualquer doença.
É a vida aconteceno, apesar dela mema.
Só pode ser ela se quereno pa sempre, sem cura, a cada novo dia.


Zuba
gente e terapeuta ocupacional de gente



domingo, 22 de fevereiro de 2026

inspirações

E eu

Que na noite passada precisei inté memo escrever poesia 

Pra ver se descobria palavras

Escondidas

Nos vocabulário perdido

Do meu coração ..


ZUBA

um sorvete

tem vez que eu só consigo dormir depois de descobrir palavra .. 

num há meia quarta feira que resolva os inteiro de uma vida toda danada. 


hoje, antes de ir trabaiar, fui tomar sorvete.

num era nem porque eu queria

na verdade, eu nem ia 

mas foi por pura precisão.


dependendo da altura do ciclo

eu chamo isso é de fogo no orobó

mas hoje vamo apelidar apenas 

de desejo de movimentar uns camim.


(fica mai bonito

pa mais prestoso

e no fim oce inda

acha que eu to fazendo poesia)


mas e então 

cos sorvete comprado 

entramo na viela 

brincamo cos encaixe inesperado do corpo 

e nos demoramo ali, 

sentados, 

vendo segundos de cada história subir e descer. 


e era cos óio bem atento

mas também cabeno sorriso nas avenida do rosto 

que sempre faz cruzamento 

com os deslize das emoção.  


e em mei a causos

reflexões, planos, relógios 

e uma moça muito das afinada que cantava um louvor nalgum banheiro 

desconfio que cheguei perto de umas conclusão 

ainda que tão longe de algumas resposta .. 


mas eu

que num sô lá muito das buscadora

de entender a fundo qualquer questão 

e num tenho medo

de distanteza 

no fim sempre me contento em sentir 

que, até aqui, nunca que bandonei meu coração. 


é como se nele coubesse 

todas as minha solução. 


e como quem faz música

com os compasso esperto do tempo

percebi que enquanto os minuto andar

as água encontrar saída 

e as estrela num desistir do céu 

há as chance dos ainda. 


no fundo,

acho que eu gosto memo de continuar

porque tudo isso combina

é com as geografia da vida 

que faz dum simples sorvete

camim pos novos dias.


ZUBA

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

2025 .. um ano bão!

 Esse ano um tanto de cruzamento invadiu meus camim, mas a correria era tanta que num dava voz justamente pros meus pensamento mais sensivo. 


Oia só proce ve como a vida é doida .. 


Agora eu já tenho mais ano de mano do que de uai, e ainda assim num é essa cidade que me guarda.


E nos aguardo de segunda a sexta, a vida manda é lembrete de que o tempo num para:


Dentro do busão que tem dia que demora uns 30 minuto pra passar, vou trabaiá um trabai que aumenta meus oiá. 


Esse ano, além de invocar um tanto de trem coletivo nas luta que acredito, virei mestra. Sou mestre na faculdade dos oto e abeiúda nas minha palavra mais enfeitada. 

Graduada, pos graduada e inventada nas arte de num sossegar.


Mas quanta alegria assistir a vida em retrospectiva, todo dia, de dento daquele busão .. 


Antes dos primeiro 10 minuto de viagem, passo em frente ao Mandaqui, hospital que me leva aos ano de 2011 quando eu desmaiei ao reencontrar meu pai depois duma cirurgia de alto risco. 

Lembro como se fosse ontem .. 

mas um tanto de acorde nasceu nos amanhã que vieram depois disso. 


Subindo mais um tanto de minuto, nas virada duma sombra onde o povo dá o quilo da hora do almoço, encontro o antigo prédio da minha madrinha. 

Lembro que quando ainda morava em minas, ela me trouxe pra passar as férias por lá. 

Eu achava chique andar de elevador, acompanhar em compras num mercado que tinha bolacha diferente e ficar oiando as altura do mundo da janela daquele trem gigante.


Hoje, passo por lá pra trabaiar, morando em São Paulo, e é inevitável num me recordar dos pé da minha infância.


Foram eles que me trouxeram até aqui..


Hoje meu rosto já combina com uns cabelo branco, meu cotidiano já traz as dureza duma rotina, os problema convoca pa otas equação e a natureza divide nome ca saudade, mas inda assim me sinto toda menina quando óio no zói do tempo.


Mas num é que eu num cresci. 

É que eu só num sou maió que as minha infinita curiosidade.

Elas que me fazem pa sempre pequena .. 


Num dos ultimo trem que escrevi do coração, cheguei à conclusão que a vida tinha era firmado acordo ca própria incompetência. 


Ela num se quer completa, arrumada, por inteiro madurecida. Ela quer memo é o espaço dos avesso, os buraco sem fundo, os canto sem aviso, os trupico de repente. Ela quer brincar com nossas resposta, dobrando as aposta e fazendo careta pos rascunho de qualqué conclusão.


A vida é serelepe, muntada em horas de imprevisível, mas ainda assim toda comprometida cos destino que desenha pa nois. 


Faz caber tudo e nada no memo batimento. Usa verbo usado e surrado e cria otos tanto nos passo do dia a dia. 


A vida mexe, no fim, é cos tamanho das nossas poesia .. 


Zuba 

sexta-feira, 6 de dezembro de 2024

tudo ao mesmo tempo, o tempo todo

finaleira de ano ..

que doidera foram os últimos tempos.

tenho feito coisas demais, e coisas muito preciosas - e custosas.

lancei um livro, tô fortalecendo um movimento social - necessário - que tem crescido muito 

fui demitida dum trampo muito significativo pra mim, e por perseguição política

tô tentando cuidar de mim no mei do camim

tenho participado de formações com estudantes

concluí uma pos em foz do iguaçu

tenho feito roteitos interestaduais em defesa do sus

tenho organizado encontros de trabalhadores

reuniões, muitas na semana

vida pessoal, tantas ..

e ainda preciso terminar meu mestrado

ja são 5 anos de mestrado e eu num aguento mais

meu prazo é começo de fevereiro para depositar

minha orientadora tá me desesperando ..

talvez eu tenha conseguido um trabai novo

perdi o que poderiam ser minhas férias

e tempo pra concluir esse mestrado como precisa

eu num sei o que será de mim no próximo 1 mes e meio

mas espero que dê tudo certim ..

só quero concluir logo esse mestrado e seguir minha vida

eu queria muito ir pra minas gerais

passar o natal com meus pais e avós

ver o acerolinha e seu sobrim

respirar ar puro

num perder o trampo que consegui - e que parece muito bão

e entregar algo legal no mestrado


mas será que vai dar?

fim de 2024 com emoções :')


zuba

quarta-feira, 2 de outubro de 2024

pode mandar embrulhar ..

tenho andado mei braba

tentano descobrir

em como que volta

a acreditar


e então

cos pensamento

preso nessa conversa 

rumei jeito de sair de casa

pa trabaiar ..

 

eu tava co rosto

todo atrapaiado

quando uma senhora

me parô na porta do metrô

 

achei que tava perdida

mai no fundo

foi ela quem me encontrô

 

sorrino nos natural do dente

pediu com gentileza

pa bater uma foto

dela em frente ao canteiro

todim colorido de flô ..

 

“é pra mandar pra minha neta

 hoje é dia do idoso”

ela solta

justificano o favô

 

eu rio

suspendo tudo

e me aprofundo na ideia

de querer parar o mundo ..

 

me emposturo em ângulo

caçando o mió jeito

de guardar pa sempre

as confiança daquele registro

 

e sigo meu rumo

achano bão

em como na vida

a gente fica inté mais bonito

quando lembra que fei memo

é se esquecer pelo camim ..


zuba