quinta-feira, 29 de julho de 2021

atualizações duma vida que num brecou

muita coisa rolou nos últimos meses ..

atualmente tô trampando num caps infantojuvenil aqui perto de casa, to em fase de conhecimento, ainda me entrosando com a galera .. sinto a necessidade de estacionar por um tempo para aprender um pouco mais sobre esse trampo na saúde mental num serviço da raps.

no mais, sou ainda muito apegada à rede e às histórias que acompanhei na leste. hoje uma defensora disse que fui lembrada com carim por i, quando questionado sobre em quem confiava. é tão bão deixar essas marcas e não permitir que elas se percam no tempo. 

há ainda muito trabaio a ser feito.

ler esta mensagem foi o incentivo que precisava para seguir com minha proposta de mestrado, que anda aos trancos e barrancos (pelo menos acabei de finalizar o ultimo trabalho para disciplina obrigatoria).

mas ultimamente é o caso de e. que tem mexido muito comigo.

e. é um jovem de 18 anos com diagnostico de esquizofrenia. ele tem alucinações auditivas que tem se intensificado nos ultimos meses. no momento, encontra-se confinado em casa, apenas rezando e repetindo estar confuso demais pra viver ou experimentar qualquer coisa nova, diferente ..

hoje liguei pra ele .. foi a primeira vez que a conversa foi com pausas. estava angustiado, com pressa para desligar, mas também com vontade de seguir com algum padrão de vida que se permite encontrar.

ele mexe comigo ..

é super crítico, diz que uma de suas maiores qualidades "é entender da vida" .. e brinco com ele, pedindo pra que "não queira entender demais .. senão fica chato".

desta vez ele nem riu.

estive pensando em casos que acompanhei ainda antes de me formar como terapeuta ocupacional. eu tenho a marca de me envolver demais e tento manter um olhar crítico sobre isso .. sobre limites terapeuticos e sobre como por vezes eu ultrapasso significativamente essas bordas.

eu me misturo no processo .. criamos, juntos, afetos, e aprendemos com eles.

há a permissão para que o imprevisivel aconteça, contando sobretudo com ele.

eu uso meu corpo, eu empresto meu corpo de terapeuta para que a pessoa descubra e se lance ao mundo, às outras pessoas. para transpor uma barreira que tá ali.

na ultima sexta, saí com e.

falei: hoje não vamos ficar aqui. vamos sair.

fazia mais de um mês que ele não saia de casa para andar na rua.

tomamos sol. por fim, ele aceitou tomar sorvete e se viu conversando sobre outras coisas que não as vozes. reconheceu, da propria boca, a sua força. "elas pedem para fazer coisas ruins, mas eu não faço".

por um tempo, a realidade acontecia fora de sua mente ..

na segunda, foi à academia.

na terça, não conseguiu subir ao consultório médico.

na quinta, não conseguia falar comigo.

e agora não consigo parar de pensar nele.


zuba


quarta-feira, 21 de abril de 2021

lembranças de um abril de 2016

quando ocê caiu na graça das nuve, o chão de cá se arrumou .. 

cores, sons, vento, oiares tão cheios .. comé que a gente vai falar de dor?

agora ficaqui .. oiando num pouso bão as suculentas pequenices da vida que ficam fazendo de piquenique o coração .. penduro o zói em agradecimento e vejo ocê rabiscar aí do céu as mió lição do mundo .. crescendo nimim a certeza de que a vida é como alguém que mora dendagente.

me diga se a dor num perde inté as propriedade??


zuba


terça-feira, 12 de janeiro de 2021

inquietações residência inclusiva

escrevo esta mensagem como desabafo e infelizmente a deixo restrita a algumas pessoas de minha rede ciente de que sua divulgação indiscriminada pode trazer alguns prejuízos de ordem profissional, o que pode não ser interessante no momento. portanto, peço que entendam meu posicionamento ..

🌻 em 2020 trampamo pa dedeu! 🌻

um trampo inspirador, que me roubou palavras .. por diversas vezes me vi incapaz de nomear a potência do que foi construído, inda mais considerando o contexto de pandemia. aprendemos experimentando. confiamos na experiência e avançamos em muitos pontos.

ceis têm noção do que é manter em isolamento social 20 pessoas com deficiência que já tinham uma vivência na rua ou então que passaram a vida toda trancadas e que só agora começavam a acessar seu direito à cidade?

mano, mó responsa ..

escrevi sobre isso ainda em março, sobre como era essencial que o isolamento fizesse sentido como medida de saúde pública e não como reprodução de um modelo asilar que por décadas confinou esses corpos. era um trampo de todo dia, o dia todo.

mas conseguimos!

chegamos em dezembro com uma pá de rolê pra celebrar! 

em termos de equipe, o trampo fluía dum jeito que deixava com gostim de quero mais. eu trampando 12 horas por dia em dois emprego e só conseguia pensar em como num conseguiria não amarrar o serviço em 2021. eu num poderia não participar do que estava por vir ..

dentre as ações realizadas, ampliamos sobretudo espaços de discussão, cumprindo com um cronograma super importante de escuta dos demais funcionários, validando seus saberes e colocando tudo isso pra girar, dando continuidade ao trabalho, deixando tudo coeso entre todos os plantões. diálogo forte, discurso de unidade. todo mundo sabia de tudo, algo muito difícil de se conseguir num equipamento que num para nunca e que se divide em duas casas.

já oiando pros usuários do serviço, praticamente sem casos de violência ou heteroagressão durante todos os meses do ano, um marco em se tratando de pessoas que em sua maioria possuem um histórico forte de violência, rupturas e abandono.

ampliamos, com eles, protagonismo e poder de decisão dentro da casa, foram feitas assembléias para que eles mesmos propusessem e discutissem as regras. criaram, namoraram, aprenderam a paquerar virtualmente, assumiram sua sexualidade, descobriram que era possível conversar quando a barra apertava. juntaram e gastaram dinheiro, alguns pela primeira vez na vida.

procuraram emprego, conseguiram trabaiar. finalmente um deles topou fazer acompanhamento psicológico, algo decisivo para seu projeto de cuidado.

descobrimos familiares, contestamos decisões judiciais, reaproximamos da família, fortalecemos incrivelmente a rede, que agora nos conhecia e nos reconhecia. que nos procurava, que nos referenciava. aparecemos, finalmente!

que trampo maravioso tive o privilégio de fazer parte.

uma pena que a própria rede assistencial não se leva a sério, e acho que é por isso que o trampo na assistência nunca vai pra frente. ele não se óia, ele não se percebe como potente, não identifica sua função e compromisso ético, técnico e político. 

eu não trabaio por amor. eu trabaio pruma política pública e componho uma equipe multidisciplinar pra fazer valer os direitos dessas pessoas com deficiência e em situação de vulnerabilidade.

eu não sou paga pra fazer carinho. eu sou paga, com dinheiro público, pra fazer essa galera experimentar a vida dum outro jeito. pra que se assustem com os "sim". pra que num se sosseguem nos "não", sempre muitos ..

sou paga pra que se confundam com as próprias possibilidades.

e infelizmente todo esse trampo não é valorizado. pelo contrário, fomos atacadas por quem também deveria tá implicado cem por cento nesse processo.

nosso trampo foi boicotado sob a alegação de estarmos regredindo com o serviço. tudo o que fizemos esse ano foi reduzido a nada, resultando na demissão extremamente arbitrária de uma colega que tava lá mil grau fazendo o rolê ir pra frente, inspirada e inspirando.

minha aliada no dia a dia, nos planos, nas discussões ali dentro .. sempre tão urgentes.

sua demissão não foi pautada, não foi discutida em equipe. de férias, se não fossemos hoje amigas, ficaria sabendo de seu desligamento através de grupos de whatsapp, dos quais ela foi excluída sem ao menos ter a oportunidade de se despedir, dando a impressão de que havia cometido algo muito grave no contexto do serviço, o que é no mínimo inadmissível e injusto com o trampo daora que ela construiu ali dentro por quase dois anos, complementando nossas ações no dia a dia com sua visão técnica e sua grande habilidade em discutir casos complexos e manejar situações de conflito, inclusive dentro da própria equipe.

desde então num me vejo quieta ..

entendo que meu cargo está em risco, e por isso tento me resguardar dentro do possível, no entanto acho importante me posicionar também por aqui como uma forma de dar vazão a esse sentimento horrível de impotencia que tô sentindo e que só se junta com mais um tanto de bosta dentro desse ano maleducado que nois tá teno que enfrentar com força misteriosa.

é um desabafo importante ..

num penso em desistir porque me sinto provocada por esse novo cenário .. mas é sempre muito triste quando trabaiam contra por pura vaidade, ignorância e medo. 

e no final, quem perde é quem sempre perdeu, fazeno igual essa história que nois insiste em querer fazer diferente ..

resistimos! ✊


zuba


quinta-feira, 22 de outubro de 2020

um bilete pa didi - marrum caso de RI

 "eu tava sentindo que hoje ia acontecer algo diferente, mas eu num sabia o que era. até achei que fosse mudar de quarto .."

relato dum cara que visitamos hoje, 4 anos morando num hospital simplesmente porque nenhuma política pública o entende como perfil ..

hoje tentamo fazer dum jeito diferente .. e ele agradeceu porque se sentiu um tiquim mais perto da rua através da gente ..

relatório é um dos trem que eu pego pa fazer em casa porque é um documento muito importante. parece bobage, mas umas palavras torta e cê pode contribuir pa que alguém fique mais 4 anos vivendo dento dum quarto branco, isolado.

num vô dizê que é descaso, mas tudo depende de como ocê chega. eu costumo dizer que se cê vai fazer um rolê achando que tá indo esquivar de problema que os oto quer mandar proce, ce ta na profissão errada. 

a rede precisa se oiar como parceira, nunca como inimiga .. 

no que nois consegue te ajudar hoje?

será que é nois memo?

e se num for, que que dá pa fazer?

e isso muda todas as próxima linha ..


zuba


terça-feira, 2 de junho de 2020

pandemia e atos antifascismo e antiracismo no brasil


manifestações contra o racismo e o fascismo cos virus bombando? vá, mas vá com jeito 🌻

no brasil a gente brinca cos dobrado ..

se a situação do vírus em cada lugarzim do mundo tem de ser contextualizado à realidade local, por aqui vira o específico do específico. isso porque além de grande, desigual e bruto, nois também têm um governo que num move uma paia pra lutar contra isso, pelo contrário ..

aqui é a dificuldade da dificuldade, é a tristeza da tristeza .. e vidas seguem sendo matadas não por vírus, mas por homens .. e em que hora da história nois vai poder escoiê pra se revoltar com isso?

a força dos corpos .. é sempre a força dos corpos.

nem só de epidemiologia vive a saúde do homi. compõe os processo de saúde e doença todas essas revolta que hoje os corpos gritam. não porque cruzaram os dia, mas porque é grande demais pá cabê dentro de qualquer metodologia ..

há outras pautas que não podem ser boicotadas pela pandemia, pautas que alem de ameaçarem determinadas vidas, tambem ameaçam a democracia. e agora cabe a nós estudarmos modos de juntar às mobilizações de um modo mais seguro e responsável.

a exposição da exposição? o medo do medo? o absurdo do absurdo? viver no brasil é memo assumir umas matemática que nunca têm fim ..

zuba


eu em 2014


doce existência que há de cumê o céu cos zoio e a vida cas mão 
não se esqueça dos pés que te enfiam nas via das contramão
que se faça o labirinto!!
e que se escafeda o certo
que eu quero mais é que tudo vá pros ...

boa semana proceis.

zuba


terça-feira, 19 de maio de 2020

mais um 18 de maio - luta antimanicomial


18 de maio ..
e foi com a luta antimanicomial que eu aprendi que dá pa fazê.

procure saber .. 
é minha inspiração memo não trampando hoje diretamente com saúde mental. isso porque a luta por uma sociedade sem manicômios é maior do que qualquer conversa sobre loucura, já que diz muito sobre essa lógica treze que dá pra enfiar tudo que é corpo desgostoso fora das visão. é esse o papo .. 

vô dar um exemplo.
tava lá no serviço hoje e uma das pessoas que acompanho colou nimim e falô nas real, usô ate dum português muito correto e tals, disse limpo, pá num deixar qualquer dúvida, que queria voltar pa sua antiga casa.

todo um esforço pa se fazer entendida, queria ter certeza que de hoje num passava, que num ia ter espaço pa dúvida. parecia que tinha ensaiado pa vir falar comigo .. 

lançou até um "possibilidade". trem cumprido, novidade na boca de quem fala ..

ô zuba ..

e falamo nas honestidade.
falei das dificuldades de retomar aquele espaço e das importância de botar isso pra fora. aos pouco, ela mema nomeou que as falta né nem a casa antiga, o role é rever sua famia, esse povo que tá tudo perdido pela cidade ..

acoiemo e pensamo em planos possíveis. 
trem que vírus nenhum breca.
depois, pediu pra pintar desenhos de praia, cachorros, gatos e sereias. nessa ordem memo que parece num fazer sentido nenhum.

e concluiu, pedindo desculpas por tá falando demais.

sempre pedindo desculpas ..

tudo o que faz ela existir, pra ela, inda bate como incomodo pos oto.
sintoma de muito trabai a ser feito porque já trabaiaram demais nos invisivo dela.

mai nincomoda não, muié .. nois adora memo é poder conversar cocê!

é pra botar pra girar ..
nois pra cima e os muro pra baixo, sempre!

é nois, tiurma .. boa semana

zuba